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Entenda mais sobre os ciclos de carreira

Joel Dutra

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A pessoa completa um ciclo de carreira quando percebe que não tem mais perspectivas de crescimento ou desafio na empresa ou no mercado onde atua. Observamos que profissionais que atuam em áreas técnicas, funcionais ou de vendas encerram ciclos entre 12 a 15 anos de atividade. Acreditamos que na década de 20 esse ciclo ficará ao redor de 10 anos.

Quando observamos pessoas que atuam em atividades gerenciais verificamos que chegam ao nível tático entre 30 e 40 anos de idade, algumas antes e outras depois, mas a maioria nessa faixa de idade; chegam ao nível estratégico entre 35 e 45 anos de idade, algumas pessoas chegam antes, mas nunca depois dos 45 anos. Esse fenômeno ocorre porque temos no Brasil uma boa parte de nossa população jovem. Acreditamos que essa barreira dos 45 anos deve perdurar ao longo da década de 20.

No caso de um gerente do nível tático que chega próximo dos 40 anos e percebe que não tem como chegar ou não quer chegar ao nível estratégico sente que está no final de um ciclo. Assim como o profissional técnico, funcional ou de vendas que sente o mesmo depois de 12 a 15 anos de experiência.

Esses casos são exemplos típicos de fechamento de ciclos, veremos a seguir outras situações. A percepção de que é necessário efetuar uma transição de carreira, porque você fechou um ciclo, ocorre lentamente.

Entretanto, algumas vezes, a pessoa toma consciência do fechamento de um ciclo de forma abrupta, como, por exemplo: porque perdeu o emprego e não consegue mais se recolocar no mercado na mesma atividade; como, por exemplo: em função da idade a pessoa não é mais aceita nas atividades que exercia anteriormente; o mercado mudou suas características e a pessoa não conseguiu acompanhar as transformações etc.

Um ícone do fechamento de ciclo é a aposentadoria. Nesse caso a pessoa é forçada a viver uma transição de carreira. A aposentadoria pode ocorrer de forma planejada ou pode ser imposta pela organização ou pela situação vivida pela pessoa. Vamos aprofundar essa reflexão a seguir.

Vamos trabalhar em como lidar com fechamentos de ciclos de forma a tirar proveito desses momentos de nossas vidas para nos reconstruirmos, para nos reinventarmos e/ou para no reconhecermos.

Perceber que estamos fechando um ciclo de carreira

Percebemos que encerramos um ciclo ou estamos em vias de encerrar um ciclo quando ocorrem as seguintes indicações:

  • Não percebemos mais desafios no que fazemos, as atividades, projetos ou processos nos quais atuamos são repetições do que já fizemos. Embora nos tragam satisfação e tenhamos o reconhecimento do nosso valor não nos oferecem novos conhecimentos ou a necessidade de desenvolvermos novas habilidades;
  • Percebemos que não agregamos mais o valor para a organização ou para as pessoas na intensidade que agregávamos anteriormente. Observamos que pessoas com menos tempo na posição que nós, oferecem novas ideias e/ou novas formas de executar o trabalho;
  • O nosso trabalho não nos traz satisfação, não acordamos mais com o entusiasmo de antes e o dia a dia não oferece novidades que nos interessem.

A grande dificuldade de observarmos os indícios de fechamento de ciclo é o fato de nos sentirmos bem com o que fazemos e o receio de pensar em uma outra carreira que é desconhecida para nós. A maior parte das pessoas que fecharam ciclos de carreira foram forçadas a fazer transições.

Por que foram forçadas? Porque foram demitidas, foram preteridas em processos de promoção e/ou reconhecimento, sentiram quebra do contrato psicológico com a organização ou passaram a sentir um grande desconforto com seu trabalho. Nesses momentos, buscam ajuda ou alternativas de carreira.

Nesses momentos as pessoas estão fragilizadas e nunca dedicaram tempo para pensar em alternativas profissionais. Essa combinação é terrível e pode levar a pessoa a caminhar em círculos sem encontrar alternativas e com perda progressiva da autoestima.

Percebemos esse fenômeno analisando biografias, entrevistando profissionais que atuam no suporte a recolocação profissional e analisando o que ocorreu com as pessoas que participaram de processos de demissão voluntária em organizações públicas e privadas.

O despreparo das pessoas para perceber a necessidade de se reinventarem profissionalmente gera muita dor e processos longos de transição. Além disso, geralmente trazem em seu bojo perda de poder aquisitivo, queda no padrão de vida e/ou perdas financeiras, problemas de saúde e agravamento de problemas de relacionamento familiar e/ou social.

Trabalhar para o fechamento de um ciclo

A vantagem de perceber com antecipação o fechamento de um ciclo é a possibilidade de refletir sobre opções de carreira. Quando percebi que minhas possibilidades de crescimento nas organizações estavam cada vez mais limitadas pensei em alternativas. Para mim as possibilidades que se desenhavam eram a atividade docente e a consultoria. Ao longo das minhas reflexões descobri coisas interessantes:

  • Podia combinar a docência como a consultoria;
  • A consultoria era uma atividade muito solitária e não gosto da solidão profissional, portanto, o modelo deveria ser de uma sociedade com outras pessoas;
  • Gostava da consultoria de processos. 

Quero demonstrar que quando refletimos sobre nós em outras situações profissionais realizamos muitas descobertas. Isso permite desenharmos a nossa nova carreira respeitando o que somos e o que gostamos.

Quando nos preparamos para uma nova carreira não precisamos necessariamente realizar uma mudança brusca. Lembro-me de vários depoimentos de pessoas que mantinham seus empregos e, ao mesmo tempo, preparavam-se para a nova carreira, estudando e experimentando novas situações.

Para ilustrar o gerente tributário de uma grande organização, complementava seus estudos em contabilidade com um curso em direito tributário. Depois de alguns anos abriu seu escritório de advocacia e hoje, após quinze anos, é um dos principais escritórios nesse setor.

Um outro caso é o de um gerente de uma grande planta química que investiu em um curso de gastronomia e após decidiu abrir um restaurante em uma cidade do interior de São Paulo e hoje é uma referência na região.

Naturalmente, não é um processo fácil, exige reflexão, lidar com frustração e incertezas, dedicação e esforço. Mas no processo emergem descobertas importantes sobre nós e sobre as nossas possibilidades. Essas descobertas são um patrimônio nosso e para toda a nossa vida.

Preparando-se para a aposentadoria

A aposentadoria traz em seu bojo um conjunto grande de mudanças em nossas vidas, para as quais as pessoas normalmente não estão preparadas. Os estudos sobre o assunto apresentam três grandes categorias de impactos em nossas vidas, além dos quais existem, ainda os impactos ligados à saúde.

A categorias de impacto sobre nossas vidas podem ser agrupados nas seguintes categorias em função de sua natureza:

  • Econômicos e financeiros;
  • Identidade profissional;
  • Família.

No caso da saúde o principal impacto é resultado do processo depressivo que se instala em boa parte dos aposentados, gerando perda da imunidade e fragilizando a saúde.  

Impactos Econômicos e Financeiros

Boa parte dos brasileiros (algo em torno de 92% segundo estudos de 2017) que ganham acima do teto do INSS, não têm qualquer mecanismo de complementação de sua renda ao se aposentarem. As pessoas necessitam desenvolver atividades para complementar a sua renda.

Ainda segundo os estudos de 2017, muitos brasileiros acumularam um patrimônio que gera despesas e não rendas, como uma segunda casa para veraneio ou passeios pelo campo, embarcações de lazer, veículos complementares etc.

A aposentadoria gera a necessidade de revisão, por parte da pessoa aposentada e de sua família, do orçamento doméstico e da reorganização de propriedades e investimentos.

Nem sempre a adaptação é fácil e tranquila, podendo gerar perdas no padrão de vida e a necessidade de mobilização do conjugue e filhos para suprir as necessidades de renda da família. Isso pode gerar desgastes nos relacionamentos e um sentimento de impotência e de depressão diante das dificuldades.

Por essa razão a preparação financeira para a aposentadoria é um item cada vez mais presente em programas de suporte oferecido pelas organizações. A complementação da aposentadoria vem ganhando espaço em nossa sociedade e deve crescer nos próximos anos, principalmente, levando em conta o aumento da longevidade das pessoas.

Impactos na identidade profissional

Existe um momento nas transições de trajetória profissional onde sabemos o que não somos, mas não sabemos o que somos. Isso é muito verdadeiro na aposentadoria. Chamamos essa fase de “limbo”.

Em nossos estudos, acompanhando biografias e a vida de pessoas aposentadas verificamos que, normalmente, após seis meses nessa situação a pessoa entre em um processo de depressão. Esse processo pode ter diferentes graus de gravidade e devemos estará atentos.

Nos anos de 1998 a 2002 acompanhamos o processo de aposentadoria dos trabalhadores da indústria automobilista da cidade de São Bernardo do Campo. Escolhemos esse grupo porque foram as pessoas que participaram do início dessa indústria em nosso país. Todas as pessoas pesquisadas tiveram algum tipo de enfermidade nos dois primeiros anos de aposentadoria. O índice de mortalidade da população investigada foi de 12,6% nos dois primeiros anos de aposentadoria.

Verificamos, ainda, nessa pesquisa que as pessoas que ocupavam posições de chefia e gerência foram as que mais sentiram a transição. Alguns pesquisados que atuavam na linha de produção já possuíam uma pequena oficina para efetuar pequenos reparos ou produção de artigos artesanais. Esses sofreram menos porque tornaram a sua atividade complementar em atividade principal, oferecendo a eles uma renda adicional, mas, o mais importante, uma identidade profissional.

Impactos na Família

Normalmente, as pessoas que vão se aposentar intuem o impacto financeiro e o impacto da identidade, mas raramente intuem os impactos na família. Observamos que a família não está preparada para lidar com o aposentado e o aposentado não está preparado para lidar com a família em uma outra dinâmica.

Um caso revelador para nós da academia foi a experiência realizada pela CPFL (empresa que distribui energia elétrica no interior de São Paulo). No início dos anos 80 era uma empresa pública e tinha um programa de complementação de aposentadoria para seus empregados.

Constatou que os índices de mortalidade dos aposentados eram maiores no primeiro ano de aposentadoria e declinavam nos anos subsequentes. Para aprofundar os estudos acompanharam os aposentados durante os primeiros seis meses. A maior parte da população da empresa era de homens, porque o serviço principal é manutenção nas redes aéreas.

Esses homens ao se aposentarem acreditavam que tinham uma casa, mas a casa, na verdade, era de sua esposa, era o seu território, invadido pelo marido aposentado. Em sua maioria as esposas enxotavam seus maridos para fora de casa, dizendo: “quero você aqui para almoçar, jantar e dormir, o resto do tempo some da minha frente”.

Os aposentados ficavam sem um espaço seu. Isso levou a organização a incrementar na preparação para a aposentadoria um trabalho com a família do aposentado e do aposentado em relação a sua família.

Observamos uma dificuldade particular quando a pessoa aposentada tem funções de chefia ou gerenciais. Nesses casos, querem subordinar seus familiares ao seu comando gerando atritos e desgastes. Um caso relatado por uma grande organização petrolífera foi de um gerente que depois de um mês aposentado decidiu, à revelia de sua esposa, demitir a empregada doméstica porque em sua avaliação era ineficiente. Dois meses depois a esposa o demitiu e pediu a separação do casal.

É interessante o relato de muitos de nossos entrevistados dizendo que não viam a hora de se aposentarem para ter uma vida sob seu domínio e depois que se aposentaram perceberam que saíram do céu para o inferno em um átimo.

Preparação para a aposentadoria

Diante dos impactos que a pessoa sofre ao se aposentar é importante uma preparação. Muitos dos problemas decorrentes da aposentadoria podem ser minimizados e/ou eliminados com um planejamento e preparação.

A questão financeira deve ser pensada idealmente dez anos antes da aposentadoria para garantir a manutenção do padrão de vida sem grandes surpresas. Os especialistas no tema recomendam que o prazo mínimo para essa preparação é de cinco anos antes da aposentadoria.

A questão da identidade deve ser pensada no mínimo quatro anos antes da aposentadoria. Verificamos que quando a pessoa decide pensar em outra trajetória de carreira ela leva em média dois anos para descobrir suas novas possibilidades. Esse processo exige autoconhecimento, análise das alternativas profissionais oferecidas ou serem desenvolvidas pela pessoa, preparação e experimentação. No momento em que a pessoa toma uma decisão sobre o caminho a ser percorrido temos um tempo médio de dois anos para que isso se torne efetivo.

Temos recomendado para as pessoas que pensam em se preparar para a aposentadoria, as carreiras complementares, onde ao longo do tempo a carreira complementar vai se tornando principal e a principal em complementar. A carreira complementar permite à pessoa experimentar atividades em paralelo às suas atividades principais, tais como: abrir sua empresa, atuar como consultor, atuar como docente, atuar em ações filantrópicas etc. Ao experimentá-las verifica o melhor encaminhamento para sua carreira após a aposentadoria.

Com relação a família é importante uma discussão prévia em relação a distribuição das atividades domésticas, uso do espaço dentro da casa, participação no orçamento familiar, relacionamento com filhos e netos etc. Essa discussão pode gerar grandes influências sobre a idealização da aposentaria desenhada pela pessoa.

Não foi incomum nos relatos dos aposentados como eles idealizavam a sua vida em família durante a aposentadoria e o que de fato ocorreu foi bem diferente. Um deles havia feito um trato com a esposa de irem ao cinema todas as quartas feiras no período da tarde e quatro anos depois da aposentadoria isso não havia ocorrido uma só vez.

Lidar com fechamentos abruptos de ciclos de carreira

Até aqui demos ênfase a situações que podemos planejar e nos prepararmos, pois temos evidências ou conseguimos antever o que irá acontecer. Entretanto, podemos viver processos inesperados de fechamento de ciclos de carreira.

Um caso que acompanhamos foi a o de uma grande organização metalúrgica brasileira que viveu, durante a crise no Brasil de 2015 e 2016, a necessidade de redução do seu quadro e de uma transformação em sua cultura. Para tanto, criou a estimulação para que gestores próximos da aposentadoria efetuassem esse processo precocemente.

As pessoas que aderiram o fizeram por uma pressão da organização e por acreditar que era a melhor alternativa diante do quadro desenhado pela conjuntura da época. De outro lado, estavam pouco preparadas para a transição imposta pela situação. A organização ofereceu um programa de preparação para aposentadoria com três vertentes: financeira, carreira e relação familiar.

Conversamos com uma amostra das pessoas aposentadas, após oito meses do término do programa. Observamos que a totalidade estava com problemas para se adaptarem a nova realidade vivida, cerca de 73% queriam uma nova ocupação, mas não tinham convicção formada em relação à mesma e cerca de 27% pensavam em manter-se totalmente inativos, cuidando da casa e da família, não tinham, entretanto, encontrado um equilíbrio em relação ao seu dia a dia e relacionamento familiar.

É importante frisarmos que a transição de trajetórias de carreira é um processo, mesmo quando vivemos situações abruptas de mudança, necessitamos oferecer um tempo para nós mesmos para refazermos um equilíbrio entre as várias dimensões de nossa vida e para encontrarmos e consolidarmos uma nova identidade profissional.

Normalmente, a consciência desse processo não diminui a dor da transição, mas oferece a oportunidade de tirarmos partido da situação para construirmos algo, para nós e para as pessoas e organizações com as quais nos relacionamos, que se constitua em um avanço e um crescimento pessoal e profissional. A falta da consciência faz com que atuemos de forma reativa e errática, em um processo que pode trazer grandes sequelas para nós e para as pessoas ao nosso redor.

Conclusão

Embora tenha trazido algumas reflexões e experiências de como lidar com fechamento de ciclos, esse processo tem uma série de dimensões que não conseguimos trazer nesse artigo. Trata-se de um tema com características muito particulares para cada pessoa. De forma mais ampla e geral recomendo à pessoa que vive essa situação a busca de uma reflexão sobre o processo que está vivendo e a humildade de procurar ajuda de pessoas do seu relacionamento e/ou de pessoas especializadas.

Esse tema é objeto atualmente de muitas pesquisas e investigações e acredito que nos próximos anos poderemos ampliar em muito as discussões sobre ele.